Hoje se usa com muita prodigalidade o vocábulo expert. Não há um marchand-de-tableaux ou crítico de arte recém improvisado que não o seja. Mas que é, afinal, um expert?
Meu saudoso amigo Jorge Beltrão (primeiro grande marchand brasileiro), com quem aprendi muita coisa sobre arte, uma vez de disse: "Um homem que em toda a sua vida viu apenas um Di Cavalcanti não pode saber se é bom ou mau; se viu dois, um terá sido melhor que o outro; quando tiver visto e estudfado uma centena de obras do mesmo artrista, sua opinião terá alguma probabilidade de ser realmente válida; e quando tiver visto mi, está em via de se tornar um expert naquele determinado artista.
Um expert é, pois, alguém que, pelo estudo profundo e paciente, tendo adquirido conhecimento particular a cerca de um determinado artista ou escola, pode, com autoridade, emitir opiniões e juízos sobre a autenticidade de uma determinada obra pertencente àquele artista, àquele período ou àquela escola.
A ação do expert restringir-se-á forçosamente ao campo do conhecimento de sua especialidade; uma opinião de Bernard Berenson sobre uma pintura italiana do Renascimento terá, logicamente, muito maior força que outra opinião do mesmo expert a cerca de, por exemplo, um quadro holandês da mesma época.
Evidentemente, mesmo o melhor experte pode equivocar-se (e frequentemente o fazem), ou discordarem entre si. No primeiro caso é prova o logro de que foi vítima o célebre expert holandês Abraham Bredius, atestando a autenticidade de um Vermeer de Del pintado pelo falsário Van Meegeren, autor da obra tão perfeita que o próprio falsário teve de provar, em juízo, que sua pintura era falsa para não ser condenado à morte - está história está contada integralmente neste livro) - ; no segundo caso, as opiniões controvertidas de toda uma legião de famosos críticos e historiadores de arte acerca do quadro "Sagrada Família", pertensente à Coleção Kress da National Gallery de Washington. Veja as opiniões dos experts:
Berenson disse - "autoria entre Catena e o jovem Ticiano" ( e mais tarde, em sua obra Italian Pictures of the Renaissance, algo inopinadamente: "Giorgiane");
L. Venturi disse: - "É um Catena";
T. Borenius disse: - "Mestre da Natividade Allendale";
R. Loghui disse - "É um Giorgione";
G.M. Richter disse: -"É um Giorgione, mas a paisagem foi pintada por Sebastiano Del Piombo";
H. Tietza disse: - "É de um aluno desconhecido de Giovanni Bellini";
A. Venturi disse: "É de um intérprete de Giorgione, mas não do próprio Giorgione".
Todos acima mencionados, famosos experts, são unanimes em considerar a obra em apreço como pintura de alta qualidade, mas em termos já não mais de crítica de arte e sim de mercado de arte; existe uma enorme diferença entre o preço de um Giorgione e o de um Catena.
Como se pode perceber, um verdadeiro expert é pessoa rara. Num mundo em que as comercializações se tornaram mais importantes que a qualidade, torna-se difícil para um marchand dedicar o tempo necessário para realmente analisar, com profundidade, uma obra antes de dar seu expertise.
Estima-se que atualmente, metade das obras de arte negociadas no mundo são falsas. Numerosos Van Gogh, 70% dos "Chagal" e 90% do "Dali". Também Picasso, Rembrandt, Renoir, Gustav Klint, Macke são os preferidos dos falsários de nossos dias.
O pintor falsário alemão Edgar Mrugalla calcula que já copiou cerca de 3.500 quadros de artistas famosos ao longo de sua vida. Esta enorme produção de obras falsas cria grandes dificuldades para os experts.
No nosso caso brasileiro o problema das expertises não é tão controvertido, pois são artistas recentes e muitos ainda estão vivos. Mesmo para os mortos há ainda, entre os marchands, críticos e amadores de arte, uma lembrança muito nítida das obras mais importantes como, por exemplo, dos criadores do modernismo brasileiro. Apesar disso, nota-se, cada vez mais pronunciado, o aparecimento de obras de importantes artistas no mercado de falsos e possíveis falsos.
Os princípios que regem a expertise são os seguintes:
a / O expert não deve manifestar-se sobre a qualidade da obra e sim limitar-se ao problema de sua autenticidade;
b/ Quem vende uma obra de arte não pode ser ao mesmo tempo autor de sua expertise;
c/ O expert pode ser responsabilizado juridicamente, sempre que ficar patenteada a má fé de qualquer expertise, mas não será culpado quando, de plena consciência, tiver expedido uma opinião depois contestada;
d/ O valor de uma expertise acha-se na razão direta do conceito de que goza quem a assina;
e/ Nenhum expert, digno de nome, fará jamais, considerações de ordem financeira ou se referirá aos preços do mercado de arte.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
sábado, 5 de agosto de 2017
O ALEIJADINHO DE VILA RICA
Quando o Aleijadinho veio ao mundo, os habitantes de Vila Rica das Minas Gerais ainda tinham na memória, horrorizados, o suplício de Filipe dos Santos, vítima da sanha desumana dos portugueses, que procuravam sufocar a qualquer custo a revolta contra o seu poder.
Era o dia 29 de agosto de 1730. Naquela velha casa, situada no arrabalde do Bom Sucesso, pertencente à Freguesia de N.S. da Conceição de Antônio Dias, nasceu Antonio Francisco Lisboa, que iria ser o maior escultor brasileiro, apesar de tão castigado em suas carnes. Foram seus pais Francisco da Costa Lisboa, hábil arquiteto português, e Isabel, uma de suas escravas africanas, a quem Lisboa libertou por ocasião do batismo do filho. Manuel Francisco Lisboa teve mais dois filhos com a mãe de Aleijadinho e alguns outros de seu legítimo matrimônio. Entre estes, achava-se o Padre Félix Antônio Lisboa, que faleceu em 30 de maio de 1838, o qual também tentou a escultura, mas sem resultado. O Aleijadinho instruiu-o à sua própria custa, para que pudesse receber as ordens sacras, e tratava-o com muita deferência.
Vila Rica, (Hoje Ouro Preto, cidade monumento nacional), nascera em um leito riquíssimo de ouro e esmeraldas, meta ambicionada dos bandeirantes e de toda a sorte de aventureiros que para lá se dirigiam, tendo como guia o majestoso docel do Itacolomi.
A velha Vila Rica, capital da província e depois Estado de Minas Gerais (até 1897). Situada a pouco mais de 100 quilômetros da atual capital mineira, a 1.100 metros sobre o nível do mar, na Serra do Espinhaço, cujo ponto culminante é o Itacolomi (1574 m), que se vê ao fundo, foi descoberta em 24 de junho de 1698 por Antônio Dias de Oliveira e pelo padre João de Faria Fialho. Vila Rica (hoje Ouro Preto, cidade monumento nacional) pouco mudou seu aspecto, sendo um grande ponto de atração turística, pelas suas relíquias históricas.
Os ecos da revolta ainda não se haviam apagado, nem se apagariam tão cedo, pois o fermento da rebelião ia preparando outro de maior repercussão, que teria epílogo em 1792, com a famosa Inconfidência Mineira, em que se sacrificariam Tiradentes, o poeta Cláudio Manoel da Costa (que se suicidou na prisão),Tomás Antônio Gonzaga (o Dirceu de Marília), Alvarenga e outros idealistas. Filipe dos santos abrira o ciclo das lutas contra o despotismo e Joaquim José da Silva Xavier o fecharia. Portugal, que tudo tirara da região, ali deixara apenas dois símbolos da força: a cadeia e o palácio fortificado dos governadores. Dois monumentos de dor!
De 1720 a 1740, iniciou-se, porém, em Vila Rica, a era dos grandes monumentos. E aí começaram a surgir essas maravilhas do barroco jesuítico, que se chamaram: São Francisco de Paula, santa Ifigênia, as Mercês, Conceição de Antônio Dias, e tantos outros templos, cujo número seria aumentado pelo genial Aleijadinho. Era o domínio da religião, pois o povo daquele tempo não tinha mais em que pensar, confinado como se encontrava entre aquelas alcantiladas montanhas, quase sem comunicação com o mundo exterior. Ali morava, também, o Padre Faria, um taubateano que se tornou uma espécie de São Francisco de Assis mineiro, sempre angariando esmolas para edificar sua igreja.
A cidade ainda vivia às escuras. A única iluminação era o luar ou, então fogueiras, lanternas, candelabros e luminárias das casas particulares. às dez horas, ouvia-se o toque de silêncio e a cidade adormecia. As festas de vila Rica era as procissões, famosas pelo seu esplendor, que atraíam visitantes dos mais remotos rincões do País.
E foi nesse ambiente provinciano que nasceu, viveu e morreu o Aleijadinho. Jamais saiu de sua província natal, em busca de ensinamentos, a observar modelos, desenvolver ideias. Era um iletrado, mal sabia ler e escrever algumas palavras, embora se falasse que possuía algum conhecimento de latim, talvez devido à convivência com os sacerdotes. Sua leitura preferida era a Bíblia, que também lhe servia como cartilha alfabetizante e lhe inspirou suas obras. Aprendeu noções de desenho e arquitetura com seu próprio pai e também com o desenhista pintor João Gomes Batista, abridor de cunhas da casa de fundição de ouro. E, ali mesmo, iniciou Antônio Francisco sua carreira de arquiteto e escultor, onde excedeu todos os mestres de seu tempo, após um ligeiro aprendizado sob as vistas paternas. Percorreu quase toda a província, quando sua fama começou a projetar-se, e deixou traços de sua passagem e de seu gênio imortal em São João d'El Rei, Congonhas do Campo e outras cidades mineiras. Levou vida desregrada, dado a conquistas amorosas, até à idade de 47 anos, quando houve o nascimento de um filho natural, a quem deu o nome de seu pai. Sempre vivera cuidando de sua arte, amante de boa mesa e sempre gozando de boa saúde.
Em 1777, começaram a afligi-lo os male, segundo seus biógrafos, de origem venérea ou de um mal epidêmico, então conhecido como Zamparina, que sem tratamento causava paralisia, deformidade e até causando a morte precoce. De qualquer forma, ou por haver negligenciado no tratamento ou por complicações gálicas, Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, o que o impossibilitou, daí por diante, de caminhar, sendo obrigado a arrastar-se de joelhos. Os dedos das mãos atrofiaram-se, chegando a cair, restando-lhe apenas os polegares e os indicadores. Conta-se que, quando as dores o afligiam demasiadamente, tornava-se colérico e, então chamava por um escravo. Punha o formão sobre o dedo que o torturava e mandava um dos escravos, que eram seus ajudantes e aprendizes, que lhe assentasse um forte golpe de macete. Feito isto, continuava sua tarefa, indiferente ao sangue que corria pela pedra sabão, matéria prima de suas esculturas.
À media em que os anos se passavam, as pálpebras se lhe inflamaram, caíram-lhe todos os dentes e a boca entortou-se, tombando para baixo o queixo e o lábio inferior. Seu olhar assumiu uma expressão sinistra, feroz, assustando mesmo a quem visse de repente. Sua feiura era tamanha que um dos seus escravos tentou suicidar-se com uma navalha, preferindo a morte a servir tão horrendo senhor. Alguns estudiosos dizem que sua enfermidade proviera do abuso de cardina, substância que aperfeiçoava os conhecimentos artísticos.
Antonio Francisco ficava furioso ao notar a desagradável impressão que causava nos outros seu horrendo aspecto; todavia, na intimidade, chegava a ser alegre e jovial. Não gostava que observassem, quando trabalhava, e por isso o fazia quase oculto por um toldo. Certa vez, o então governador Bernardo José de Lorena foi obrigado sair de perto do escultor, tal a quantidade de estilhaços que este lhe atirava propositalmente. Servia-se do auxílio de um escravo africano, Maurício, para o trabalho de entalhe. O negro acompanhava-o por toda parte. Era ele quem lhe adaptava os ferros e o macete às mãos imperfeitas. O Alijadinho, como passou a ser denominado, usava também um aparelho de couro ou de madeira, à guisa de joelheiras, e era de admirar a destreza com que subia pelas escadas mais altas. O escravo recebia a metade do que ganhava o senhor, e sua fidelidade era tanta que muitas vezes apanhava de macete atado às mãos e não protestava, embora fosse muito mais forte. Além de Maurício, serviam ao Aleijadinho outros dois escravos: Agostinho e Januário, aquele como auxiliar de entalhador e este para guiar-lhe o burro. Quando ia à missa, era carregado numa cadeira, por dois escravos, mas preferia ser levado ás costas por Januário, nas vezes em que ia a matriz de Antônio Dias, contígua à sua casa. Geralmente preferia fugir à vista de estranhos, saindo de madrugada para o serviço, regressando já noite fechada, exigindo que lhe fustigassem a montaria, para evitar olhares curiosos.
Na sua imensa infelicidade, Antônio Francisco encontrava conforto na leitura da Bíblia e era nas escrituras sagradas que buscava alento e inspiração. Gostava também de ler livros de medicina, talvez procurando conhecer melhor o mal que o dilacerava.
Nas obras de aleijadinho, observa-se sempre a intenção de um verdadeiro artista, buscando imprimir à pedra os sentimentos ou a dor que lhe ia no corpo e na alma. Atentando-se, principalmente, que não teve mestres científicos nem frequentou escolas, onde pudesse receber os conhecimentos indispensáveis a quem se dedica a tão difícil gênero artístico, deve-se convir que ele mereceu o justo renome de que gozou ainda em vida, e que agora se imortalizou. Na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, seu gênio se manifestou soberano. Sua é a planta, bem como a talha e a escultura do frontispício da capela, os dois púlpitos, o chafariz da sacristia, as imagens das Três Pessoas da santíssima Trindade e dos Anjos, no altar-mor, a talha deste e a escultura referente à ressurreição de Cristo, a figura do Cordeiro sobre o Sacrário e toda a esculturado teto da capela-mor.
Nota-se, nesses admiráveis trabalhos, mais inspiração do que propriamente técnica. No relevo que representa São Francisco recebendo os estigmas, o corpo e o o semblante do "Poverello" são deveras impressionantes e, junto ao santo, há esculpida uma açucena cujas hastes caem tão lânguidas e tão naturalmente que por isso não se pode deixar de homenagear o artista. Jesus pregando às turbas em Tiberíades, Jonas prestes a ser engolido pela baleia, os Evangelistas Mateus e João e as demais figuras alegóricas possuem realmente algo de divina inspiração.
A imagem de São Jorge, figura imprescindível nas famosas procissões de Corpus Christis de Ouro Preto, possui, aliás, uma história pitoresca. O Aleijadinho raramente trabalhava sem ser por inspiração. Tal imagem lhe foi encomendada pelo governador Bernardo José Lorena, para ser levada, a cavalo, nas festividades religiosas. Recebido pelo ajudante de ordens, coronel José Romão, este exclamou, recuando: - "Feio homem!" O escultor, indignado, ia retirar-se, quando o governador apareceu e tranquilizou-o, dizendo-lhe que desejava uma estátua maior do que existente, e só ele, o Aleijadinho, seria capaz de fazê-la. Mas Antônio Francisco vingou-sede José Romão, fazendo o rosto do Santo à imagem daquele. Repetiu, assim, a vingança de Miguel Ângelo ao pintar o Cardeal Biaggio de Casana no inferno, e a de Leonardo Da Vinci, que retratou, em Judas, um seu desafeto.
A arte de Aleijadinho revelou-se sublime também nas igrejas de N.S. do Carmo das Almas, de Vila Rica, na matriz e na capela de São João del Rei, nas matrizes de São João do Morro Grande e de Sabará, na capela de São Francisco, na de Mariana, nas Ermidas das fazendas de Serra negra, Tabocas e Jaguará, do referido termo de Sabará, e nos templos de Congonhas do Campo e Santa Luzia.
Segundo alguns críticos, suas obras-primas devem ser procuradas em Congonhas do Campo e em São João del Rei, principalmente na magnífica planta da capela de São Francisco, naquela cidade, e do bem acabado trabalho de escultura e talha do respectivo frontispício. A imaginação popular, todavia, como sempre acontece com qualquer indivíduo que se manifesta admirável e famoso em qualquer gênero, exagera ao atribuir-lhe obras e passagens por outras terras. A perfeição e suas estátuas, em Matosinhos de Congonhas do Campo, era tal que algumas mulheres, que lá foram pela primeira vez, as cumprimentaram, tal como acontece com as uvas de Zêuxis, que os pássaros bicavam, jogando frutas reais. Mas apesar da sua habilidade e dos inúmeros trabalhos que executou, o Aleijadinho viveu quase sempre na miséria. O que ganhava, repartia fielmente com o escravo Maurício, falecido em Congonhas, quando seu amo esculpia os profetas e os Três Passos da Ceia, da Prisão e do Horto, no Santuário de Matosinhos. O escultor trabalhava a meia oitava de ouro por dia. E, ao concluir a obra da Capela do Carmo, recebeu seu salário em ouro falso...
Nos dias em que recebi o pagamento, era cercado por um bando de famintos e doentes de toda a sorte, que vinham de Ouro Fino, Ouro Pobre, Bom Sucesso, Mariana, dos arredores de Itacolomi, cada qual mais horripilante, furiosos, em busca das moedas de ouro. Então o Aleijadinho sentia-se rico, imensamente rico, mas só Deus sabia de que que riqueza. Para que lhe servia o ouro? E atirava-o a mãos cheias, dizendo: "- Tomem irmãos, todo esse ouro é de vocês! Que ele lhes mate a fome e suavize as dores e desgraças!
E no dia em que aquele bando de mendigos, leprosos,dementes, cegos, estropiados, descobriu que as moedas eram falsas e voltaram-se todos contra o doador, enorme foi a mágoa do Aleijadinho, que chegou a chorar, não por perder o dinheiro, que para ele não tinha valor algum, mas por não poder aliviar a miséria daqueles párias.
Vejam, agora, como Rodrigo José Ferreira Bretas, mineiro, político, jornalista, o mais antigo biógrafo de Antônio Francisco Lisboa, lhe descreve os últimos dias, num substanciosos artigo, publicado em 1858, no "Correio Oficial de Minas" (números 169 a 170).
"O Aleijadinho passa a residir numa casa contígua ao Santuário de N.S. do Carmo, em companhia do seu escravo Justino. Por ocasião dos Dias Santos de Natal, Justino retira-se para a rua do Alto da cruz, onde tinha a família, deixando ali seu mestre, que, durante muitos dias, por descuido do discípulo, não teve aquele tratamento e cuidados a que estava acostumado. Com este fato coincidiu o de perder quase inteiramente a vista, o nosso famoso escultor.
Neste estado, recolhe-se à sua casa, sita na Rua Detrás de Antônio Dias (hoje demolida), da qual, depois de algum tempo, se mudou definitivamente, para a de sua nora, de nome Joana, parteira, que dele tratou, carinhosamente, até o seu falecimento, o qual teve lugar dois anos depois de seus últimos trabalhos de inspeção da Capela do Carmo, a 18 de novembro de 1814, na idade de 84 anos, e meses e 21 dias.
Justino tinha pago apenas a seu mestre uma pequena parte do salario de um ano, que lhe pertencia, e, pois, até o fim de sua vida, a obsessão do mestre, nos seus solilóquios, era exigir do discípulo o que lhe era devido. Durante o tempo em que esteve entrevado, frequentes vezes apostrofava à Imagem do Senhor, que tinha em seu aposento e tantas vezes havia esculpido, pedindo-lhe que sobre ele pusesse os seus Divinos pés...
É natural que, então, a vida de sua inteligência em grande parte consistisse na recordação do seu brilhante passado de artista; ele se transportaria muitas vezes, em espírito, ao santuário de Matosinhos, para ler profecias no semblante no semblante dos inspiradores do Velho Testamento, cujas figuras tinham sido ali obradas por seu escopro. Nelas trabalhara durante dois anos. Em 1805, ficaram concluídos os quatro profetas do plano inferior, do parapeito do adro, à direita: Abdias e Amós, e, à esquerda, Naum e Habacuc. Em 1810, terminaria Jonas, Daniel, Oséias, Joel, Jeremias, Isaías, Baruch e Ezequiel. Ignora-se o motivo porque excluíra da obra os demais profetas: Elias, Eliseu, Miqueias, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Durante quase dois anos, horrivelmente chegado, o Aleijadinho jazeu sobre um estrado (tês tábuas sobre toros ou cepos de pau, pouco acima do chão).
- Levem-me a São Francisco de Assis! - pediu aos escravos, quando se sentiu nas últimas.
Meteram-no no estrado e depuseram-no nas lages úmidas da sacristia.
- Aqui não! Ponham-me diante do altar-mor! - foi seu derradeiro desejo.
Ali o deixaram, serrando as portas. Madrugada alta, o velho sacristão de São Francisco veio abrir a capela para a missa. Quase desfaleceu com o cheiro insuportável que asfixiava aquele interior que, de comum, o incenso perfumava em inebriantes exalações. E ali perto, inerte, deparara o corpo do Aleijadinho, repugnante e medonho, com as feições decompostas. A boca, congestionada, entreabria-se num sorriso sinistro, meio trágico, meio de escárnio, para o mundo que ficava em redor, com as suas incuráveis deformidades.
O Artista estava morto. A massa informe de seu corpo de Lázaro entrava em plena decomposição. Sozinho, nas lages frias da nave, ele gozara toda a delícia de uma noite de núpcias, sob o pálio palpitante de sua obra imortal.
Assim se findou aquele que, por suas obras de artista distinto, tanto havia honrado sua Pátria. Tanta miséria ousando aliar-se a tanto gênio e poesia!
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho de Vila Rica, acha-se sepultado na matriz de Antônio Dias, em Ouro Preto. Descansa numa sepultura contígua e fronteira ao altar da Senhora da Boa Morte, cuja festa, pouco antes, tinha sido juiz.
Era o dia 29 de agosto de 1730. Naquela velha casa, situada no arrabalde do Bom Sucesso, pertencente à Freguesia de N.S. da Conceição de Antônio Dias, nasceu Antonio Francisco Lisboa, que iria ser o maior escultor brasileiro, apesar de tão castigado em suas carnes. Foram seus pais Francisco da Costa Lisboa, hábil arquiteto português, e Isabel, uma de suas escravas africanas, a quem Lisboa libertou por ocasião do batismo do filho. Manuel Francisco Lisboa teve mais dois filhos com a mãe de Aleijadinho e alguns outros de seu legítimo matrimônio. Entre estes, achava-se o Padre Félix Antônio Lisboa, que faleceu em 30 de maio de 1838, o qual também tentou a escultura, mas sem resultado. O Aleijadinho instruiu-o à sua própria custa, para que pudesse receber as ordens sacras, e tratava-o com muita deferência.
Vila Rica, (Hoje Ouro Preto, cidade monumento nacional), nascera em um leito riquíssimo de ouro e esmeraldas, meta ambicionada dos bandeirantes e de toda a sorte de aventureiros que para lá se dirigiam, tendo como guia o majestoso docel do Itacolomi.
A velha Vila Rica, capital da província e depois Estado de Minas Gerais (até 1897). Situada a pouco mais de 100 quilômetros da atual capital mineira, a 1.100 metros sobre o nível do mar, na Serra do Espinhaço, cujo ponto culminante é o Itacolomi (1574 m), que se vê ao fundo, foi descoberta em 24 de junho de 1698 por Antônio Dias de Oliveira e pelo padre João de Faria Fialho. Vila Rica (hoje Ouro Preto, cidade monumento nacional) pouco mudou seu aspecto, sendo um grande ponto de atração turística, pelas suas relíquias históricas.
Os ecos da revolta ainda não se haviam apagado, nem se apagariam tão cedo, pois o fermento da rebelião ia preparando outro de maior repercussão, que teria epílogo em 1792, com a famosa Inconfidência Mineira, em que se sacrificariam Tiradentes, o poeta Cláudio Manoel da Costa (que se suicidou na prisão),Tomás Antônio Gonzaga (o Dirceu de Marília), Alvarenga e outros idealistas. Filipe dos santos abrira o ciclo das lutas contra o despotismo e Joaquim José da Silva Xavier o fecharia. Portugal, que tudo tirara da região, ali deixara apenas dois símbolos da força: a cadeia e o palácio fortificado dos governadores. Dois monumentos de dor!
De 1720 a 1740, iniciou-se, porém, em Vila Rica, a era dos grandes monumentos. E aí começaram a surgir essas maravilhas do barroco jesuítico, que se chamaram: São Francisco de Paula, santa Ifigênia, as Mercês, Conceição de Antônio Dias, e tantos outros templos, cujo número seria aumentado pelo genial Aleijadinho. Era o domínio da religião, pois o povo daquele tempo não tinha mais em que pensar, confinado como se encontrava entre aquelas alcantiladas montanhas, quase sem comunicação com o mundo exterior. Ali morava, também, o Padre Faria, um taubateano que se tornou uma espécie de São Francisco de Assis mineiro, sempre angariando esmolas para edificar sua igreja.
A cidade ainda vivia às escuras. A única iluminação era o luar ou, então fogueiras, lanternas, candelabros e luminárias das casas particulares. às dez horas, ouvia-se o toque de silêncio e a cidade adormecia. As festas de vila Rica era as procissões, famosas pelo seu esplendor, que atraíam visitantes dos mais remotos rincões do País.
E foi nesse ambiente provinciano que nasceu, viveu e morreu o Aleijadinho. Jamais saiu de sua província natal, em busca de ensinamentos, a observar modelos, desenvolver ideias. Era um iletrado, mal sabia ler e escrever algumas palavras, embora se falasse que possuía algum conhecimento de latim, talvez devido à convivência com os sacerdotes. Sua leitura preferida era a Bíblia, que também lhe servia como cartilha alfabetizante e lhe inspirou suas obras. Aprendeu noções de desenho e arquitetura com seu próprio pai e também com o desenhista pintor João Gomes Batista, abridor de cunhas da casa de fundição de ouro. E, ali mesmo, iniciou Antônio Francisco sua carreira de arquiteto e escultor, onde excedeu todos os mestres de seu tempo, após um ligeiro aprendizado sob as vistas paternas. Percorreu quase toda a província, quando sua fama começou a projetar-se, e deixou traços de sua passagem e de seu gênio imortal em São João d'El Rei, Congonhas do Campo e outras cidades mineiras. Levou vida desregrada, dado a conquistas amorosas, até à idade de 47 anos, quando houve o nascimento de um filho natural, a quem deu o nome de seu pai. Sempre vivera cuidando de sua arte, amante de boa mesa e sempre gozando de boa saúde.
Em 1777, começaram a afligi-lo os male, segundo seus biógrafos, de origem venérea ou de um mal epidêmico, então conhecido como Zamparina, que sem tratamento causava paralisia, deformidade e até causando a morte precoce. De qualquer forma, ou por haver negligenciado no tratamento ou por complicações gálicas, Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, o que o impossibilitou, daí por diante, de caminhar, sendo obrigado a arrastar-se de joelhos. Os dedos das mãos atrofiaram-se, chegando a cair, restando-lhe apenas os polegares e os indicadores. Conta-se que, quando as dores o afligiam demasiadamente, tornava-se colérico e, então chamava por um escravo. Punha o formão sobre o dedo que o torturava e mandava um dos escravos, que eram seus ajudantes e aprendizes, que lhe assentasse um forte golpe de macete. Feito isto, continuava sua tarefa, indiferente ao sangue que corria pela pedra sabão, matéria prima de suas esculturas.
À media em que os anos se passavam, as pálpebras se lhe inflamaram, caíram-lhe todos os dentes e a boca entortou-se, tombando para baixo o queixo e o lábio inferior. Seu olhar assumiu uma expressão sinistra, feroz, assustando mesmo a quem visse de repente. Sua feiura era tamanha que um dos seus escravos tentou suicidar-se com uma navalha, preferindo a morte a servir tão horrendo senhor. Alguns estudiosos dizem que sua enfermidade proviera do abuso de cardina, substância que aperfeiçoava os conhecimentos artísticos.
Antonio Francisco ficava furioso ao notar a desagradável impressão que causava nos outros seu horrendo aspecto; todavia, na intimidade, chegava a ser alegre e jovial. Não gostava que observassem, quando trabalhava, e por isso o fazia quase oculto por um toldo. Certa vez, o então governador Bernardo José de Lorena foi obrigado sair de perto do escultor, tal a quantidade de estilhaços que este lhe atirava propositalmente. Servia-se do auxílio de um escravo africano, Maurício, para o trabalho de entalhe. O negro acompanhava-o por toda parte. Era ele quem lhe adaptava os ferros e o macete às mãos imperfeitas. O Alijadinho, como passou a ser denominado, usava também um aparelho de couro ou de madeira, à guisa de joelheiras, e era de admirar a destreza com que subia pelas escadas mais altas. O escravo recebia a metade do que ganhava o senhor, e sua fidelidade era tanta que muitas vezes apanhava de macete atado às mãos e não protestava, embora fosse muito mais forte. Além de Maurício, serviam ao Aleijadinho outros dois escravos: Agostinho e Januário, aquele como auxiliar de entalhador e este para guiar-lhe o burro. Quando ia à missa, era carregado numa cadeira, por dois escravos, mas preferia ser levado ás costas por Januário, nas vezes em que ia a matriz de Antônio Dias, contígua à sua casa. Geralmente preferia fugir à vista de estranhos, saindo de madrugada para o serviço, regressando já noite fechada, exigindo que lhe fustigassem a montaria, para evitar olhares curiosos.
Na sua imensa infelicidade, Antônio Francisco encontrava conforto na leitura da Bíblia e era nas escrituras sagradas que buscava alento e inspiração. Gostava também de ler livros de medicina, talvez procurando conhecer melhor o mal que o dilacerava.
Nas obras de aleijadinho, observa-se sempre a intenção de um verdadeiro artista, buscando imprimir à pedra os sentimentos ou a dor que lhe ia no corpo e na alma. Atentando-se, principalmente, que não teve mestres científicos nem frequentou escolas, onde pudesse receber os conhecimentos indispensáveis a quem se dedica a tão difícil gênero artístico, deve-se convir que ele mereceu o justo renome de que gozou ainda em vida, e que agora se imortalizou. Na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, seu gênio se manifestou soberano. Sua é a planta, bem como a talha e a escultura do frontispício da capela, os dois púlpitos, o chafariz da sacristia, as imagens das Três Pessoas da santíssima Trindade e dos Anjos, no altar-mor, a talha deste e a escultura referente à ressurreição de Cristo, a figura do Cordeiro sobre o Sacrário e toda a esculturado teto da capela-mor.
Nota-se, nesses admiráveis trabalhos, mais inspiração do que propriamente técnica. No relevo que representa São Francisco recebendo os estigmas, o corpo e o o semblante do "Poverello" são deveras impressionantes e, junto ao santo, há esculpida uma açucena cujas hastes caem tão lânguidas e tão naturalmente que por isso não se pode deixar de homenagear o artista. Jesus pregando às turbas em Tiberíades, Jonas prestes a ser engolido pela baleia, os Evangelistas Mateus e João e as demais figuras alegóricas possuem realmente algo de divina inspiração.
A imagem de São Jorge, figura imprescindível nas famosas procissões de Corpus Christis de Ouro Preto, possui, aliás, uma história pitoresca. O Aleijadinho raramente trabalhava sem ser por inspiração. Tal imagem lhe foi encomendada pelo governador Bernardo José Lorena, para ser levada, a cavalo, nas festividades religiosas. Recebido pelo ajudante de ordens, coronel José Romão, este exclamou, recuando: - "Feio homem!" O escultor, indignado, ia retirar-se, quando o governador apareceu e tranquilizou-o, dizendo-lhe que desejava uma estátua maior do que existente, e só ele, o Aleijadinho, seria capaz de fazê-la. Mas Antônio Francisco vingou-sede José Romão, fazendo o rosto do Santo à imagem daquele. Repetiu, assim, a vingança de Miguel Ângelo ao pintar o Cardeal Biaggio de Casana no inferno, e a de Leonardo Da Vinci, que retratou, em Judas, um seu desafeto.
A arte de Aleijadinho revelou-se sublime também nas igrejas de N.S. do Carmo das Almas, de Vila Rica, na matriz e na capela de São João del Rei, nas matrizes de São João do Morro Grande e de Sabará, na capela de São Francisco, na de Mariana, nas Ermidas das fazendas de Serra negra, Tabocas e Jaguará, do referido termo de Sabará, e nos templos de Congonhas do Campo e Santa Luzia.
Segundo alguns críticos, suas obras-primas devem ser procuradas em Congonhas do Campo e em São João del Rei, principalmente na magnífica planta da capela de São Francisco, naquela cidade, e do bem acabado trabalho de escultura e talha do respectivo frontispício. A imaginação popular, todavia, como sempre acontece com qualquer indivíduo que se manifesta admirável e famoso em qualquer gênero, exagera ao atribuir-lhe obras e passagens por outras terras. A perfeição e suas estátuas, em Matosinhos de Congonhas do Campo, era tal que algumas mulheres, que lá foram pela primeira vez, as cumprimentaram, tal como acontece com as uvas de Zêuxis, que os pássaros bicavam, jogando frutas reais. Mas apesar da sua habilidade e dos inúmeros trabalhos que executou, o Aleijadinho viveu quase sempre na miséria. O que ganhava, repartia fielmente com o escravo Maurício, falecido em Congonhas, quando seu amo esculpia os profetas e os Três Passos da Ceia, da Prisão e do Horto, no Santuário de Matosinhos. O escultor trabalhava a meia oitava de ouro por dia. E, ao concluir a obra da Capela do Carmo, recebeu seu salário em ouro falso...
Nos dias em que recebi o pagamento, era cercado por um bando de famintos e doentes de toda a sorte, que vinham de Ouro Fino, Ouro Pobre, Bom Sucesso, Mariana, dos arredores de Itacolomi, cada qual mais horripilante, furiosos, em busca das moedas de ouro. Então o Aleijadinho sentia-se rico, imensamente rico, mas só Deus sabia de que que riqueza. Para que lhe servia o ouro? E atirava-o a mãos cheias, dizendo: "- Tomem irmãos, todo esse ouro é de vocês! Que ele lhes mate a fome e suavize as dores e desgraças!
E no dia em que aquele bando de mendigos, leprosos,dementes, cegos, estropiados, descobriu que as moedas eram falsas e voltaram-se todos contra o doador, enorme foi a mágoa do Aleijadinho, que chegou a chorar, não por perder o dinheiro, que para ele não tinha valor algum, mas por não poder aliviar a miséria daqueles párias.
Vejam, agora, como Rodrigo José Ferreira Bretas, mineiro, político, jornalista, o mais antigo biógrafo de Antônio Francisco Lisboa, lhe descreve os últimos dias, num substanciosos artigo, publicado em 1858, no "Correio Oficial de Minas" (números 169 a 170).
"O Aleijadinho passa a residir numa casa contígua ao Santuário de N.S. do Carmo, em companhia do seu escravo Justino. Por ocasião dos Dias Santos de Natal, Justino retira-se para a rua do Alto da cruz, onde tinha a família, deixando ali seu mestre, que, durante muitos dias, por descuido do discípulo, não teve aquele tratamento e cuidados a que estava acostumado. Com este fato coincidiu o de perder quase inteiramente a vista, o nosso famoso escultor.
Neste estado, recolhe-se à sua casa, sita na Rua Detrás de Antônio Dias (hoje demolida), da qual, depois de algum tempo, se mudou definitivamente, para a de sua nora, de nome Joana, parteira, que dele tratou, carinhosamente, até o seu falecimento, o qual teve lugar dois anos depois de seus últimos trabalhos de inspeção da Capela do Carmo, a 18 de novembro de 1814, na idade de 84 anos, e meses e 21 dias.
Justino tinha pago apenas a seu mestre uma pequena parte do salario de um ano, que lhe pertencia, e, pois, até o fim de sua vida, a obsessão do mestre, nos seus solilóquios, era exigir do discípulo o que lhe era devido. Durante o tempo em que esteve entrevado, frequentes vezes apostrofava à Imagem do Senhor, que tinha em seu aposento e tantas vezes havia esculpido, pedindo-lhe que sobre ele pusesse os seus Divinos pés...
É natural que, então, a vida de sua inteligência em grande parte consistisse na recordação do seu brilhante passado de artista; ele se transportaria muitas vezes, em espírito, ao santuário de Matosinhos, para ler profecias no semblante no semblante dos inspiradores do Velho Testamento, cujas figuras tinham sido ali obradas por seu escopro. Nelas trabalhara durante dois anos. Em 1805, ficaram concluídos os quatro profetas do plano inferior, do parapeito do adro, à direita: Abdias e Amós, e, à esquerda, Naum e Habacuc. Em 1810, terminaria Jonas, Daniel, Oséias, Joel, Jeremias, Isaías, Baruch e Ezequiel. Ignora-se o motivo porque excluíra da obra os demais profetas: Elias, Eliseu, Miqueias, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Durante quase dois anos, horrivelmente chegado, o Aleijadinho jazeu sobre um estrado (tês tábuas sobre toros ou cepos de pau, pouco acima do chão).
- Levem-me a São Francisco de Assis! - pediu aos escravos, quando se sentiu nas últimas.
Meteram-no no estrado e depuseram-no nas lages úmidas da sacristia.
- Aqui não! Ponham-me diante do altar-mor! - foi seu derradeiro desejo.
Ali o deixaram, serrando as portas. Madrugada alta, o velho sacristão de São Francisco veio abrir a capela para a missa. Quase desfaleceu com o cheiro insuportável que asfixiava aquele interior que, de comum, o incenso perfumava em inebriantes exalações. E ali perto, inerte, deparara o corpo do Aleijadinho, repugnante e medonho, com as feições decompostas. A boca, congestionada, entreabria-se num sorriso sinistro, meio trágico, meio de escárnio, para o mundo que ficava em redor, com as suas incuráveis deformidades.
O Artista estava morto. A massa informe de seu corpo de Lázaro entrava em plena decomposição. Sozinho, nas lages frias da nave, ele gozara toda a delícia de uma noite de núpcias, sob o pálio palpitante de sua obra imortal.
Assim se findou aquele que, por suas obras de artista distinto, tanto havia honrado sua Pátria. Tanta miséria ousando aliar-se a tanto gênio e poesia!
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho de Vila Rica, acha-se sepultado na matriz de Antônio Dias, em Ouro Preto. Descansa numa sepultura contígua e fronteira ao altar da Senhora da Boa Morte, cuja festa, pouco antes, tinha sido juiz.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
COMO JULGAR UMA PINTURA
Nicéas Romeo Zanchett
Não se pode julgar uma obra de arte sem primeiro olhá-la atentamente. Observe cada detalhe sem se preocupar com o assunto que ela representa. Uma prolongada observação poderá indicar-lhe como a obra foi concebida.
Observação: Aqui me vem à memória a imagem do meu saudoso amigo Jorge Beltrão - o primeiro grande marchand brasileiro - Quando estava analisando uma obra de arte ele costumava acender seu cachimbo, sentar em frente à obra e ali ficar horas olhando cada detalhe.
Nunca condene uma obra pelo simples fato de nunca ter visto algo assim. A pintura é sempre uma criação e portanto o artista tem o direito de abstrair-se da realidade imediata. Um bom exemplo são as obras cubistas de Picasso. Muitos odeiam, outros amam e outros, ainda, não entendem e nem querem entender. Mas geralmente são obras criadas com muito talento e, portanto, de qualidade. Você pode gostar ou não, mas não pode julgá-la com ruim pelo fato do artista ter usado uma cor que lhe é estranha como, por exemplo, pintar uma mulher de verde.
Um bom tema não é suficiente para uma boa pintura, mas uma boa pintura torna bom qualquer tema. Uma natureza morta pode ser tão boa quanto um nu feminino ou uma paisagem.
Não fique o tempo todo interrogando o que quer dizer isso ou aquilo. Uma obra de arte é como uma sinfonia. Ao ouvir uma bela música você a sente penetrar e atingir suas emoções. Pode gostar ou não. Muitos não gostam de obras clássicas, mas isto não desmerece sua qualidade. Com uma boa pintura acontece a mesma coisa. A linguagem da música são os sons e da pintura são as cores e formas.
Gostar ou não gostar não é a questão. Sendo a pintura uma linguagem de comunicação visual, cabe a ela comunicar-se com você, e não você com ela. Portanto, deixe que a pintura o absorva a atinja seus sentidos.
Cada estilo de pintura tem linhas próprias de comunicação. Ao observar as linhas de sua composição verifique se elas se desenvolvem sem muitos acidentes ou se, pelo contrário, são extremamente acidentadas.
Quando temos uma pintura de estilo coerente, às linhas calmas sucedem-se cores límpidas e espalhadas regularmente na tela. Cores violentamente contrastadas são de linhas acidentadas. Isto pode dar uma noção do estado de espírito do artista ao concebê-la. Um bom exemplo a ser observado são as obras de Van Gogh em suas diversas fazes.
Se na obra houver o claro - escuro observe seu equilíbrio. O claro - escuro é o artifício utilizado pelos artistas conscientes para dar a sensação de terceira dimensão. Ao claro corresponde a parte que se encontra na luz e ao escuro o lado da sombra. Dai a importância do equilíbrio entre os dois. Em pintores ou estilos que preferem as cores e linhas serenas, geralmente o claro - escuro é pouco visível, e essas pinturas parecem ter pouca profundidade. Isto é normal e, portanto, não desqualifica a pintura.
É a atenta observação da obra que lhe dirá se o artista deu mais valor aos volumes ou se preferiu dar mais ênfase à cor. No primeiro caso teríamos uma pintura de valores escultóricos e no segundo teríamos uma pintura de valores cromáticos. Diante de uma pintura de valores escultóricos não se pode exigir cores violentas. Da mesma forma, não se pode incriminar um pintor de obras com valores cromáticos por não dar volume às suas figuras. Cada pintura tem sua essência que pode ser criativa ou não.
Cada época e cada indivíduo tem seu seu estilo característico. Seria um absurdo imaginar todos pintando da mesma forma. Isto acontecia nas obras do antigo Egito, que eram copiadas indefinidamente. Se fosse assim não seria arte, criação individual. Se Picasso pintasse como Rafael, um "Picasso" não seria um "Picasso". Cada artista reflete seu próprio mundo, sua época e, portanto, impossível de ser imitado.
De um modo geral, os artistas sofrem influência de outros artistas. Trezentos anos depois de Rafael Sânzio, Ingres sofreu sua influência ao pintar o rosto de uma moça do século XIX. Ao pintar a nova Madona, Ingres buscou inspiração na pintura renascentista. Isto é muito comum em toda a história da arte.
Quando temos uma pintura de estilo coerente, às linhas calmas sucedem-se cores límpidas e espalhadas regularmente na tela. Cores violentamente contrastadas são de linhas acidentadas. Isto pode dar uma noção do estado de espírito do artista ao concebê-la. Um bom exemplo a ser observado são as obras de Van Gogh em suas diversas fazes.
Se na obra houver o claro - escuro observe seu equilíbrio. O claro - escuro é o artifício utilizado pelos artistas conscientes para dar a sensação de terceira dimensão. Ao claro corresponde a parte que se encontra na luz e ao escuro o lado da sombra. Dai a importância do equilíbrio entre os dois. Em pintores ou estilos que preferem as cores e linhas serenas, geralmente o claro - escuro é pouco visível, e essas pinturas parecem ter pouca profundidade. Isto é normal e, portanto, não desqualifica a pintura.
É a atenta observação da obra que lhe dirá se o artista deu mais valor aos volumes ou se preferiu dar mais ênfase à cor. No primeiro caso teríamos uma pintura de valores escultóricos e no segundo teríamos uma pintura de valores cromáticos. Diante de uma pintura de valores escultóricos não se pode exigir cores violentas. Da mesma forma, não se pode incriminar um pintor de obras com valores cromáticos por não dar volume às suas figuras. Cada pintura tem sua essência que pode ser criativa ou não.
Cada época e cada indivíduo tem seu seu estilo característico. Seria um absurdo imaginar todos pintando da mesma forma. Isto acontecia nas obras do antigo Egito, que eram copiadas indefinidamente. Se fosse assim não seria arte, criação individual. Se Picasso pintasse como Rafael, um "Picasso" não seria um "Picasso". Cada artista reflete seu próprio mundo, sua época e, portanto, impossível de ser imitado.
De um modo geral, os artistas sofrem influência de outros artistas. Trezentos anos depois de Rafael Sânzio, Ingres sofreu sua influência ao pintar o rosto de uma moça do século XIX. Ao pintar a nova Madona, Ingres buscou inspiração na pintura renascentista. Isto é muito comum em toda a história da arte.
A CRIATIVIDADE DEPENDE DA LIBERDADE
Nicéas Romeo Zanchett
A liberdade é a maior fonte de criatividade. A criação de algo novo, seja uma melodia, uma pintura, uma escultura, ou a construção de uma frase que ninguém tenha feito antes, exige esforço criativo. Os momentos de criatividade, em que nascem novas ideias, são imprevisíveis e sem total liberdade eles ficam inibidos.
Toda a criatividade precisa, acima de tudo, de muita motivação e vontade de alcançar uma meta. É algo que vem de dentro e frequentemente é tão frágil que pode ser facilmente anulada pelo ambiente. As forças que inspiram ou tentam estimulá-la, moldam sua qualidade. A motivação intrínseca conduz à criatividade, enquanto extrínseca pode ser prejudicial. Isto quer dizer que quando somos inspirados pelos nossos próprios interesses, temos prazer e maior probabilidade de explorar novos caminhos. Nessa condição somos impelidos a correr novos riscos e assim podemos produzir algo singular e proveitoso. Já, quando as metas nos são impostas por outros ou outras razões, a criatividade fica muito prejudicada. É o caso de quando somos obrigados a produzir pela simples ânsia de ganhar dinheiro, ou pelo temos do desemprego. Artistas talentosos como Van Gogh, Gauguin, Picasso e tantos outros, criavam pelo simples prazer, sem se preocupar com as questões financeiras, muito embora alguns tenham sofrido por isso. Muitos criadores nos legaram grandes feitos, mas viveram e morreram na pobreza.
Os julgamentos constantes podem inibir a criatividade. Já foi comprovado que as pessoas obtém melhores resultados quando sua produção não está frequentemente sendo julgada. Escrever poemas pintar, desenhar, pesquisar cientificamente, são tarefas que exigem liberdade e concentração. No caso das criações artísticas é muito comum as interferências externas que visam tão somente os resultados financeiros. O pintor que é conduzido pelo marchand, mesmo com promessa de recompensa, não conseguirá produzir obras de boa qualidade. Isso fica muito evidente nos nossos dias, em que a arte está sendo moldada pelo dinheiro.
Os gigantes da criatividade sempre trabalharam intensivamente, mas a liberdade de criação sempre foi a marca determinante da qualidade de suas obras. Albert Einstein escreveu 248 trabalhos científicos; Picasso produziu uma média de 200 trabalhos por ano; Thomas Alva Edison registrou 1.093 patentes; Wolfgang Amadeus Mozart vivei apenas 35 anos, mas compôs mais de 600 peças que nos encantam até hoje.
Uma das características dos grandes gênios da humanidade é que começam trabalhar ainda jovens e produzem sem descanso até o fim da vida. Johann Sebastian Bach produziu mais de mil peças e ditou sua última obra do leito de morte, aos 65 anos; Sigmund Freud escreveu seu primeiro trabalho quado tinha apenas 21 anos.
Existe algo estranho que impulsiona os criadores a se aventurarem, em ritmo frenético, no mundo da beleza ou da verdade até idade avançada, mas o auge da idade produtiva é na meia idade, ou seja, por volta dos 40 anos. Ludwig Van Beethoven compôs sua Quinta Sinfonia aos 37 anos, mesma idade em que Miguel Ângelo pintou a Capela Sistina. Mesmo com o avanço da idade, os atributos criativos nunca se esgotam, ao contrário, com o passar dos anos a experiência se soma à criatividade nata.
As pessoas criativas são inteligentes, mas o que se observa é que um alto grau de inteligência, por si só, não é garantia de sucesso. Sempre vemos pessoas inteligentes que vivem de forma comum e rotineira, sem nunca chegar ao êxito. São indivíduos que aprenderam uma profissão e a elas dedicam toda uma vida sem nada de novo criar. É como se já se sentissem realizadas com o diploma pendurado na parede e então para de estudar a passam a viver de forma repetitiva. Por outro lado, uma capacidade cerebral demasiadamente elevada pode até ser prejudicial. A educação tradicional, se não for conduzida por um hábil profissional, pode ser um empecilho para a criatividade. É que os gênios criadores confiam mais na sua própria inteligência e costumam frequentar a escola escola até obterem o conhecimento básico e a capacidade técnica de que necessitam e então abandonam os estudos tradicionais e seguem por conta própria. É o que chamamos de auto-didata.
O conhecimento e a educação, por si mesmos, não tem nada de mal, mas os estudos tradicionais podem inibir a criatividade pela assimilação de métodos rotineiros de fazer as coisas. O ensinamento do "passo a passo" acaba impedindo as soluções insólitas, mas criativas. Se na escola a pessoa aprende os princípios básicos em vez de simples regras de fazer, o conhecimento pode ser verdadeiramente proveitoso. Entretanto, se a pessoa aprende uma fórmula para fazer cada coisa, acaba entrando numa rotina que facilita as realizações e então não sente necessidade de criar suas próprias maneiras de fazer. Isso equivale a dizer que nem precisa pensar, é só seguir os métodos que lhe são impostos que tudo sairá como planejado.
Por tudo isso, a criatividade e a genialidade são parceiras inseparáveis da liberdade.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
A ARTE E O PRAZER
Nicéas Romeo Zanchett
As artes são, por excelência, ciências de luxo.
O primeiro objetivo da arte é o prazer. O prazer que o artista sente ao produzir sua obra e o prazer de quem a vê.
É difícil explicar o prazer que sentimos diante das criações de um grande artista. Podemos gozar da obra de arte sem possuí-la. Este sentimento não tem nada de comum com o gozo dos bens pessoais e nem com o amor próprio que todos temos. Ao vermos uma obra de arte de um grande artista , sentimos o puro prazer estético, desprovido de qualquer cobiça ou ideia de posse. Este é talvez o mais nobre dos sentimentos que podemos experimentar sobre um objeto material.
Quando apreciamos uma obra de arte antregamo-nos, e entramos no mundo do seu criador em perfeita comunhão com todos os que a admiram naquele momento. É um momento de puro prazer, sem nenhum sentimento de ciúmes ou egoísmos.
A verdadeira obra de arte é um bem público, que não pertence a ninguém e, ao mesmo tempo, pertence a todos que a vêem.
Quando uma obra de arte se transforma em mito, eterniza seu criador.
O verdadeiro artista vê a vida de uma maneira diferente. Sua forma de expressar os sentimentos, sonhos e entendimentos podem até colidir com os de outras pessoas que não conseguem entendê-lo. E quando uma obra se transforma em mito, eterniza seu criador.
TATUAGEM - A ARTE NA PELE
Nicéas Romeo Zanchett
A tatuagem é antes de tudo uma forma de exibicionismo para os outros.
É na natureza que podemos identificar as mais diversas formas de exibicionismo para chamar a atenção na busca de uma parceira ou parceiro para o acasalamento. O pavão abre sua cauda em leque multicolorido para atrair a fêmea. O Galo da Serra, infla o peito e abre sua linda plumagem para impressionar sua parceira.
Os seres humanos buscam na tatuagem, além do exibicionismo, uma forma de expressão do seu interior tatuando o corpo com desenhos que traduzem sua maneira de viver e amar.
No mundo inteiro a tatuagem é bastante praticada e divulgada por pessoas famosas.
A tatuagem vem, cada vez mais, tomando conta da pela dos brasileiros. Musas da TV e dos Palcos, médicos, advogados, jornalistas, juízes renomados, homens e mulheres na terceira idade, também possuem suas tatuagens. Alguns fazem questão de mostrar, outros as mantém apenas para deleite de seus parceiros íntimos.
Ao contrário do que muita gente pensa, a tatuagem não teve origem com os marinheiros dos diversos cais de portos do mundo. Arqueólogos descobriram configurações em múmias no Chile e Egito. Otomanos, mongóis e brâmanes adotavam tatuagens para designar valentia, autoridade ou submissão. Nas minas de pólvora da China e caiena, na guiana Francesa, as partilhas quentes que incrustavam a pele dos mineiros representando força de trabalho e coragem. Meninos em tribos asiáticas provocavam cicatrizes quando se tornavam caçadores, e as mulheres também se tatuavam quando pariam pela primeira vez.
O significado da grafologia e simbologia usados nos desenhos é tão extenso quanto a própria criatividade.
Para o povo asteca, a borboleta significava a concretização da evolução do ser. Hoje se associa à liberdade, à natureza ou a transformação.
No oriente, um dragão ou cobra com asas representa uma imagem sagrada. Quando Confúcio avistou Lao Tsé, pai do taoismo, sobre uma montanha chinesa, exclamou: "eis o Dragão, o Senhor do Conhecimento." Já na Europa este símbolo é relacionado a um objeto fálico e narcisista.
A representação das diversas pinturas varia conforme a experiência e imaginação das pessoas. Tudo é uma questão de expressão daquele momento e por isso muitos jovens se arrependem de determinado desenho quando seu conhecimento e experiência de vida evoluem. Muitos tentam apagar e outros buscam formas de mudar seu desenho, tentando adaptá-lo aos seus atuais sentimentos.
Nas academias de ginástica, nos esportes e em todas as praias da costa brasileira pode-se apreciar um verdadeiro batalhão de jovens exibindo os mais diversos motivos pintados em seus belos corpos bronzeados.
A irreversibilidade dos desenhos é uma questão importante que precisa estar na mente de quem vai ser tatuado. Hoje existe a tatuagem descartável criada com tintas hidrocores sobre as quais é passado um verniz que resiste a muitos banhos. É ideal para quem quer ter sua primeira experiência com esta arte na própria pele.
Quando se fala em tatuagem, a primeira pergunta que nos vem é: "dói muito?" A dor é o ingrediente que leva muitos jovens a desistir dessa experiência. Muitos profissionais utilizam-se de diversos artifícios para amenizar este sofrimento. Pomadas anestésicas, música ambiente, paredes cheias de Posters e até potentes refletores que visam distrair o consciente do tatuando, são utilizados.
A decoração de um ateliê de tatuagem é muito especial. Alguns chegam parecer uma caverna cheia de mistérios. Entrar em um ateliê de tatuagem repleto de fotos, quadros e álbuns é uma verdadeira viagem ao imaginário. Os incríveis desenhos das paredes fazem uma verdadeira lavagem cerebral. Os olhos passeiam pelos Posters do teto ao chão, pelo corpo multicolorido do tatuador e pela luz ambiente. A cabeça começa a girar e o coração dispara. O medo vai pouco a pouco se transformando em ansiedade e curiosidade.
Um bom tatuador é antes de tudo um bom desenhista. Tatuagem não tem rascunho e um simples ponto, uma curva errada ou um pequeno deslize pode transformar um camaleão em um dragão, um colibri em uma águia, um peixinho num tubarão.
Qual é o seu desenho ideal? Essa pergunta só pode ser respondida por quem vai ser tatuado. É preciso pensar muito antes de decidir para não haver precoce arrependimento. Os diversos catálogos disponíveis nos ateliês podem ajudar muito. Outra sugestão é nunca começar com uma tatuagem grande. Uma simples borboletinha pode levá-la a sentir qual é o seu verdadeiro sonhos.
A MILENAR ARTE ERÓTICA INDIANA
Nicéas Romeo Zanchett
Mistério, fascínio e misticismo.
A história da Índia começa com Alexandre Magno, no ano 326 a.C.; entretanto, antes mesmo dele existir, já havia uma civilização tri-milenar avançadíssima chamada Proto-História, que os especialistas vem pacientemente reconstruindo.
A Índia moderna que conhecemos se divide em duas fases: a de dominação inglesa e a Índia independente que se iniciou em 1948, quando Nehru assumiu a presidência do país.
Em Ellora estão algumas das grutas mais bonitas do mundo, transformadas em colossal santuários. São 34 grutas, sendo 12 Budistas e 22 Bramânicas. Ali existe também um impressionante templo dedicado à Shiva.
A Índia é um verdadeiro Museu de Arte Milenar.
Em Khajuraho se encontram os famosos templos com estátuas representando o amor sexual. Porque foram construídos é um mistério que perdura ao longo de séculos. Ainda hoje, nossa cultura ocidental não consegue entender a sexualidade ali representada em esculturas tão exóticas que, a princípio, eram vistas como pornográficas. Felizmente, na medida em que os mistérios vão sendo desvendados, vamos compreendendo e podemos finalmente perceber que a pornografia estava apenas nos olhos de quem as via.
Apesar da destruição promovida pelos invasores, ainda hoje existem 22 templos dedicados ao amor.
O Yoga sexual ou Maithuma, é um tema frequente nas esculturas Hindus. As figuras maithuna não podem ser vistas como orgias rituais; na verdade, representam a eterna união do espírito com a natureza. A sexualização é espiritualizada, onde homem e mulher se complementam mutuamente. O amor sexual é uma forma de adoração, onde os parceiros representam, um para o outro, a reencarnação da divindade. Meditar sobre o assunto nos leva a perceber que somos seres em correlação e não em separação. O amor físico implica na verdadeira descoberta do parceiro.
A união entre homem e mulher é o casamento entre o céu e a terra. A energia sexual do casal manifesta-se como energia espiritual, com o poder divino de procriar.
A semente unida à terra fecunda o campo, assim como o sêmen unido ao óvulo fecunda o ventre e produz o milagre de uma nova vida.
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